Sonho de receber dívida da UFN-3 permanece distante

25/07/2017

Sonho de receber dívida da UFN-3 permanece distante

Dois anos e sete meses após o calote do Consórcio UFN3, formado pelas empresas Galvão Engenharia e Sinopec, o sonho de receber essa dívida permanece distante para empresários locais. As empreiteiras foram contratadas pela Petrobras para construir a fábrica de fertilizantes nitrogenados em Três Lagoas, obra gigantesca que chegou a gerar sete mil postos de trabalho no pico. De acordo com Gláucia Puzzelo Jaruche, presidente da Associação Comercial e Industrial de Três Lagoas, a notícia de que a UFN3 estaria cotada para compra de investidores estrangeiros, após uma decisão judicial divulgada em junho último, que liberou a transação comercial, trouxe certo ânimo para o comércio local e esperança de que as dívidas também tivessem encaminhamento. “Já são dois anos de espera e até agora nada”, explicou. Em dezembro de 2014 - quando descoberto forte esquema de corrupção envolvendo a estatal e construtoras do País, a Petrobras rompeu com as duas empreiteiras alegando quebra de contrato por descumprimento de prazos. Com isso, as obras foram totalmente interrompidas e pagamentos suspensos, deixando para trás o total de 133 fornecedores, pequenos e médios empresários locais, sem receber. O calote, na época, foi estimado em R$ 36 milhões (hoje, deve passar de R$ 40 milhões) que, aliado à recessão nacional, quebrou a economia da cidade. Naquela época, quase 50% dos fornecedores ou fecharam as portas ou mudaram de atividade após o calote. Permanecendo ou não nas suas atividades, muitos empresários ainda estão pagando essa conta. É o caso da empresária Priscila Dutra Caleffi. Ela era dona de uma lavanderia que, em 2012, passou a fornecer serviços no canteiro de obras da fábrica, mas quando as obras foram paralisadas, teve que arcar com uma dívida de R$ 500 mil. “Muitos ainda não conseguiram se reerguer. Eu ainda estou pagando essa conta, porque hoje tenho que trabalhar com um food trucky em um período de crise, em que as pessoas não têm dinheiro para consumir. Não é como antes, em que todos estavam iludidos e gastando”. Depois de dois anos e meio de espera, a saída encontrada por Priscila foi não pensar no assunto. “Coloquei tudo nas mãos do advogado. E tento não pensar muito sobre isso. Caso contrário, não iria mais viver. Tento não criar muita expectativa e ir tocando um dia de cada vez. Mas não vou desistir de recuperar esse dinheiro”, disse. BLOQUEIO O prejuízo à economia local foi tamanho que gerou ação civil pública por danos morais coletivos. Por meio da ação, o Ministério Público Estadual conseguiu um alento aos empresários, o bloqueio do valor devido, R$ 36 milhões, das contas da Petrobras, que, como contratante, foi apontada como corresponsável pelo calote. Em seguida, a Justiça de Três Lagoas tentou, por algumas vezes, marcar audiência de conciliação entre as três partes envolvidas, Petrobras, empreiteiras e empresários. Mas o encontro não chegou a acontecer. “Foi nos explicado que o MPE poderia bloquear o recurso com ação coletiva. Porém, para o recebimento do dinheiro os empresários teriam que entrar com ações individuais, e contra o Consórcio. Foi o que fizemos”, contou a empresária. Priscila cita que algumas audiências de conciliação já foram realizadas, individualmente, entre empresários e empreiteiras, mas sem sucesso. “Eles alegam que não têm dinheiro, viram as contas e vão embora”. ESPERA As obras da unidade de fertilizantes foram iniciadas em 2011, com a promessa de construção da maior planta da América Latina. O projeto, no entanto, foi paralisado há mais de dois anos, quando a estatal rompeu contrato com o consórcio, composto pelas empresas Galvão Engenharia, alvo de investigações na Lava Jato, e a chinesa Sinopec Petroleum do Brasil.

A planta estava com 80% das obras concluídas, em um investimento aplicado de mais de R$ 3 bilhões. Esse abandono do projeto depois de alto investimento, paralelamente à notícia de venda do ativo, motivou ação civil pública do Ministério Público Federal, que propôs a retomada das obras pela estatal e a proibição da venda da fábrica. Em 5 de junho deste ano, a Justiça Federal suspendeu, até o dia 11 de setembro próximo, a ação civil pública proposta pelo MPF, liberando a Petrobras para “ negociar ou alienar o referido empreendimento”. Paralelamente à ação do MPF, permanecem bloqueados na Justiça, após decisão da Vara de Fazenda Pública de Três Lagoas, R$ 36 milhões, de valores da Petrobras, devido à inexistência de valores disponíveis em contas bancárias das empresas do Consórcio UFN3. O dinheiro continua bloqueado.

Venda será tema de reunião com a diretoria da estatal

A venda da fábrica de fertilizantes será um dos temas que deverá ser tratado em reunião entre diretoria da Petrobras e representantes da Prefeitura de Três Lagoas. Por meio de assessoria de imprensa, o secretário de Desenvolvimento Econômico do município, Luiz Teixeira Empke, a reunião está prevista para agosto deste ano, em data a ser confirmada. Entre as empresas que teriam interesse na fábrica em construção está a própria Sinopec, que participou da construção, o grupo Yara, da Noruega e, mais recentemente, também pode ter entrado na disputa a estatal chinesa China National Petroleum Corporation (CNPC). No come- ço deste mês, a petrolífera assinou memorando com a Petrobras prevendo que as companhias podem avaliar oportunidades no Brasil e nos exterior, em áreas de interesse mútuo. A expectativa é que a venda da UFN3 seja anunciada no novo plano de desinvestimentos da estatal brasileira prevista para setembro. O secretário preferiu não se manifestar sobre possíveis interessados na planta para evitar especulação, mas confirmou o pedido de Três Lagoas e do governo do Estado para incluir, na venda, o pagamento das dívidas aos fornecedores. O pedido também conta com apoio da bancada de MS. Estima-se um investimento de R$ 800 milhões para concluir o projeto e pelo menos dois grupos estariam interessados.

Correio do Estado